Cloridrato de cocaína (Derivado da coca) p5p14p154 Cloridrato de cocaína (Derivado da coca) Diversos achados arqueológicos permitem afirmar que a utilização da folha de coca é ancestral... Diversos achados arqueológicos permitem afirmar que a utilização da folha de coca é ancestral: já havia consumidores de folha de coca no Equador e no Peru por volta do ano 2500 a.C., e o acesso a esta esteve na origem de muitos confrontos nos séculos XII e XIII da nossa era, até os Incas conseguirem o seu controlo absoluto, a partir de 1315. Para os Incas, era não só uma substância medicinal que servia, basicamente, para aliviar a fadiga, mas também algo de sagrado e, como tal, incluída no panteão e nos rituais religiosos.

Depois da descoberta da América, a coca não despertou grande interesse entre os conquistadores. A sua atitude foi bastante ambígua a esse respeito: por um lado, a Igreja proibiu a mastigação da folha de coca por ser considerada um vício pagão e desprezível, mas, por outro, deu-se conta dos benefícios que isso lhe trazia, permitindo que os índios trabalhassem sob os efeitos dessa substância. A partir dessa data, abundam as referências à utilização da coca pelos cronistas e viajantes, que louvavam os seus benefícios estimulantes e medicinais. No entanto, contrariamente ao que aconteceu com o tabaco e o quinino, não conseguiram atrair suficientemente os espanhóis para o seu consumo ou exploração comercial.

A cocaína foi isolada por Nieman e Wolter em 1858 e, nos anos que se seguiram, o interesse pela substância aumentou; numa época em que a farmacologia era uma ciência incipiente e as restrições legais poucas ou nulas, rapidamente se comercializou em grande escala, convertendo-se num ingrediente fundamental de produtos, como o vinho tónico de Angelo Mariani e inumeráveis remédios caseiros, sendo inclusivamente, durante dezassete anos, a componente mais popular da Coca-Cola.

No entanto, neste mesmo período, uma importante discussão científica em relação à cocaína possibilitou avanços teóricos e conceptuais mais relevantes em torno do fenómeno da dependência. Por um lado, Sigmund Freud, seguindo as pisadas daqueles que preconizavam o uso terapêutico da cocaína, contribuiu para provar a sua utilidade como anestésico local e, ao mesmo tempo que começava a consumi-la, defendia a sua inocuidade nos seus diversos trabalhos. Por outro lado, Louis Lewin, que já tinha publicado a sua famosa monografia sobre "heroinomania", opõe-se às teses de Freud, desenvolvendo todo o modelo conceptual que temos vindo a descrever: o fenómeno da dependência das drogas. Nesse mesmo ano (1885), Freud rectifica; publica os seus "apontamentos sobre a ânsia de cocaína" e começa a construir o conceito de toxicomania.

Em todo o caso, no princípio do século XX e em particular na etapa dos "despreocupados anos vinte" nos países ocidentais viveu-se uma epidemia de consumo de cocaína por aspiração nasal, até que as medidas internacionais de controlo e, de forma muito clara, a Segunda Guerra Mundial, reduziram drasticamente o seu consumo. No pós-guerra e pelo menos até aos anos 70, o seu consumo foi muito marginal obedecendo a diferentes padrões, de país para país.

Na década de 70, começando pelos Estados Unidos, a cocaína transformou-se numa droga associada publicitariamente à imagem do êxito social, o que proporcionou uma rápida expansão em todas as classes sociais e especialmente entre os consumidores habituais e abusivos de outras drogas como, por exemplo, a heroína, o álcool ou as anfetaminas.

Apresentação. Vias de administração

Trata-se de um pó cristalino, branco, cintilante, de sabor amargo, que é habitualmente consumido por via nasal. Pode também ser absorvido pelas mucosas (por exemplo, esfregando as gengivas). Alguns consumidores injectam-no, puro ou misturado com outras drogas (em geral, heroína), o que produz frequentes problemas de úlceras, devido à rápida destruição dos tecidos cutâneos. O cloridrato de cocaína não se volatiliza, tornando-se por isso num produto inadequado para fumar, tanto mais que uma boa parte do mesmo é destruída a temperaturas elevadas

Aspectos farmacológicos

O cloridrato de cocaína adquire altas concentrações no plasma de forma bastante rápida, sobretudo se a via de administração for intravenosa. O metabolismo é fundamentalmente hepático mas deve ter-se em conta que a velocidade com que a substância é absorvida é muito mais rápida do que a sua destruição, facto que leva o organismo a sofrer efeitos tóxicos com relativa facilidade.

Relativamente ao seu mecanismo de acção, pode comprovar-se que a cocaína pertence ao grupo de substâncias simpático-miméticas indirectas: não actua sobre a libertação de dopamina e noradrenalina e, embora iniba a recaptura destas aminas, provoca um aumento destes neurotransmissores na fenda sináptica e um elevado estímulo das vias de neurotransmissão, nas quais estas aminas estão implicadas.

Efeitos

Efeitos imediatos.
Doses moderadas de cocaína produzem:

Ausência de fadiga, sono e fome.
Exaltação do estado de ânimo.
Maior segurança em si mesmo.
Prepotência: diminui as inibições e o indivíduo vê-se como uma pessoa sumamente competente e capaz.
Aceleração do ritmo cardíaco e aumento da tensão arterial.
Aumento da temperatura corporal e da sudação.
Reacção geral de euforia e intenso bem estar.
Anestésico local
Quando o uso é ocasional, pode incrementar o desejo sexual e demorar a ejaculação, mas também pode dificultar a erecção.

Com doses altas, os efeitos são:

Insónia, agitação.
Ansiedade intensa e agressividade.
Visões e alucinações (as típicas são as tácteis, como a sensação de ter insectos debaixo da pele).
Tremores, convulsões.

À sensação de bem-estar inicial segue-se em geral uma decaída caracterizada por cansaço, apatia, irritabilidade e um comportamento impulsivo.

Efeitos a longo prazo.
Complicações psiquiátricas: irritabilidade, crises de ansiedade e pânico, diminuição da memória, da capacidade e da concentração. Fazemos uma referência especial para a chamada "psicose da cocaína", com características similares à psicose esquizofrénica com predomínio das alucinações auditivas e das ideias delirantes de tipo persecutório.
Apatia sexual ou impotência.
Transtornos alimentares (bulimia e anorexia nervosa).
Alterações neurológicas (cefaleias ou acidentes vasculares como o enfarte cerebral).
Cardiopatias (arritmias).
Problemas respiratórios (dispneia ou dificuldade para respirar, perfuração do tabique nasal,...).
Importantes consequências sobre o feto durante a gravidez (aumento da mortalidade perinatal, aborto e alterações nervosas no recém nascido).

Potencial de dependência.
A cocaína é a droga com maior potencial de dependência. É a droga que provoca a maior percentagem de viciados depois de ser consumida em poucas ocasiões. Devido à curta duração dos seus efeitos psicoactivos e ao rápido aparecimento de sintomas de abstinência, provoca um consumo compulsivo. Apesar de não gerar uma síndrome de abstinência com sinais físicos típicos, as alterações psicológicas são notáveis: hiper-sonolência, apatia, depressão, ideias suicidas, ansiedade, irritabilidade, intenso desejo de consumo. Este estado pode conduzir ao abuso de depressores como as benzodiazepinas, o álcool e os opiáceos.
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